Mahakavi Camõis (Super poet em concanim)
Evocar Camões é entrar num território de reverência. Poucas figuras terão marcado tão profundamente o espírito de um povo. Esta obra é uma viagem simbólica pelos momentos que mais intensamente ressoam com a vida e a obra do poeta — em particular, o seu tempo no Oriente e a presença decisiva de Goa.
O mapa antigo de Pangim emerge como memória viva, onde as lágrimas de Camões correm sob a forma dos rios Mandovi e Zuari. As caravelas que abriram o caminho marítimo para a Índia são aqui sinal de deslocação e descoberta, mas também de turbulência — entre línguas, culturas e gentes diversas que faziam daquela cidade uma verdadeira babilónia. Esse caos fértil foi alimento direto da escrita de Camões, que procurava sempre manter-se fiel à experiência vivida, evitando o excesso de ficção. Sabia que lhe fora dado viver numa época extraordinária.
Espada e pena cruzam-se — uma metáfora visual para a sua dualidade: soldado e poeta, boémio e erudito, homem de carne e símbolo universal. As grades evocam a prisão do Tronco, em Goa, um dos poucos locais onde se admite que Camões tenha sido retratado em vida. A representação remete para o momento em que, provavelmente, compunha o Canto X d’ Os Lusíadas. O olhar que se abre, depois de fechado, simboliza o alcance da sua visão e da sua inteligência, ampliado ainda pela torre de vigia (o “caralho”) — um lugar físico e metafórico de onde se vê mais longe.
A coroa e as barbas em vermelho desafiam o olhar e a interpretação. Já os amarelos, onde se encontram espada e pena, iluminam o quadro com a luz da epopeia. Os Lusíadas, concebida ao longo de 17 anos no Oriente, pulsa neste território pictórico. Apesar da liberdade conferida para reinventar a base da obra, a escolha de integrar o trabalho sobre a matriz criada por Ricardo Ferreira intensificou o desafio e tornou esta homenagem ainda mais densa e dialogante.
Ano: 2024 | Dimensão: Díptico 140x100 (cm) | Técnica: Acrílico sobre tela de algodão (lado inverso)